Engenheiros de software, em sua maioria, se envolvem emocionalmente com o próprio trabalho. Em muitos aspectos, se parecem mais com artistas do que com profissionais “tradicionais”. Tratam o código-fonte como uma obra de arte, cuidam de cada detalhe e sentem frustração quando a empresa decide abandonar um projeto no qual investiram tempo e energia.
Isso pode parecer bonito e, de certa forma, é mesmo. O problema é que esse envolvimento emocional torna engenheiros de software particularmente vulneráveis a burnout.
Vamos ver alguns motivos que fazem engenheiros e engenheiras trabalharem a mais:
Sensação de ser útil
Ao ler o artigo de Sean Goedecke sobre o vício em ser útil, foi fácil me enxergar ali e reconhecer muitos colegas. Pessoas que genuinamente gostam de ajudar, resolver problemas e “fazer acontecer”.
Esse perfil costuma trabalhar além das horas pagas, estender o expediente ou até sacrificar fins de semana, tudo pela satisfação de concluir uma funcionalidade importante ou destravar um projeto que parecia empacado. Quando questionada, a pessoa geralmente não se sente explorada: ninguém mandou trabalhar a mais. A decisão foi dela.
Mas será mesmo?
Em um episódio de Modern Family, a Gloria se faz de cansada e sobrecarregada para manipular a Claire a limpar sua casa. Claire, obcecada por trabalho e se sentindo culpada por ter largado o emprego, vira uma vítima perfeita. Ninguém a obrigou mas alguém soube exatamente como acionar seus gatilhos.
Isso poderia facilmente acontecer em um ambiente corporativo.
Veja mais nesse outro artigo do Sean Goedecke sobre manipulação e roubo de tempo.
Satisfação de completar algo ou resolver um problema
Esse caso é parecido com o anterior, mas a motivação é um pouco diferente. Aqui, a razão principal é o desafio intelectual. O problema precisa ser resolvido, muitas vezes não por ser urgente ou prioridade mas pelo desafio de dizer “eu consegui!”.
É o engenheiro que fica frustrado se alguém termina a tarefa primeiro ou se o projeto é cancelado porque “não é mais prioridade”.
A recompensa não é ajudar alguém, mas a conclusão em si. O fechamento do ciclo. O momento “aha!”.
Ser necessário
Aqui entra outro perfil muito comum: o herói/a heroína.
É a pessoa que pega todas as tarefas, resolve tudo, responde mensagens a qualquer hora e vira o gargalo técnico do time. Os colegas se sentem atrasados, inseguros ou dependentes. Qualquer tarefa mais complexa “precisa” passar por essa pessoa, porque só ela é capaz de resolver.
O poder pode ser embriagador e muitas vezes a pessoa nem se dá conta de que entrou nessa dinâmica. Aqui a pessoa pensa que nada é “pedir demais” pois se sente especial e escolhida.
Tudo funciona bem até o dia em que essa pessoa tira férias, adoece ou sai da empresa. Aí o caos se instala.
A armadilha da rodinha do rato
Ao conversar com engenheiros de software, quase todos parecem cansados. Muitos reclamam de se dedicarem muito e, ainda assim, não serem promovidos.
Como o ratinho na rodinha: corre, corre, corre mas não sai do lugar. Como numa armadilha, engenheiros trabalham até cansarem mas não veem resultados em sua evolução de carreira.
Em outro artigo, Sean Goedecke fala sobre o conceito do “holofote” em promoções. A questão não é o quanto você trabalha, mas onde e quando você trabalha.
Muitas vezes, trabalhamos demais não porque é necessário, mas por ansiedade, apego ou obsessão em “fazer direito”. Enquanto isso, promoções seguem prioridades estratégicas.
A empresa decidiu investir em service mesh? Você vira especialista em três dias.
Mudou o foco para IA? Mesma coisa.
Funciona mas é exaustivo.
Jia Yue Zhao traz outra perspectiva ao falar sobre tarefas que não promovem: atividades que consomem tempo, energia e boa vontade, mas não contribuem para crescimento de carreira.
Planejar um evento interno para promover a tecnologia XYZ vai te ajudar a ser promovido?
Se não, talvez a resposta precise ser um “não”.
O problema é saber exatamente quais tarefas ajudam e quais não. Recomendo a leitura do artigo para descobrir por você mesmo.
Conclusão
Ultimamente, tenho tentado manter em mente a ideia do bom o suficiente. Não no sentido de desistir da excelência técnica ou de pensar que “qualquer coisa serve”, mas de reconhecer limites reais.
Nossa energia mental e física é limitada. Buscar a solução mais perfeita para todos os problemas deixa de ser virtude e passa a ser desperdício.
Parte do amadurecimento é criar e reconhecer limites.
Ou seja, saber quando algo já cumpriu seu propósito, quando um trabalho já atingiu seu objetivo e é hora de seguir em frente.
Referências
- https://news.theuncommonexecutive.com/p/how-to-say-no-to-non-promotable-tasks
- https://www.seangoedecke.com/addicted-to-being-useful/
- https://www.seangoedecke.com/predators/
- https://www.seangoedecke.com/the-spotlight/
O episódio de Modern Family citado é o episódio 7 da temporada 11 (“The Last Thanksgiving”).